27.11.03

O desastre de Copacabana 

27/11/2003
Êpa! Está caindo no Brasil, estatisticamente, um helicóptero por mês: foram cinco desde julho. Este que caiu em Copacabana no dia 23/11/03 servia à  Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio. Vamos examinar os dados que já temos sobre esse acidente, com base nas notícias de jornal.

Disse o piloto: "estávamos voando sobre o Morro dos Cabritos quando o helicóptero começou a descer na diagonal. Tivemos muita sorte pois o local da queda fica muito perto de um penhasco. Ainda tentei manobrar, mas os comandos não responderam".

Testemunhas disseram ao jornal O Globo que o helicóptero voava muito baixo, sobre os prédios da Rua Santa Clara, meu Deus. Teria rodopiado sobre a Praça Edmundo Bittencourt - eram 19:30hs, hora de adolescentes por lá - indo depois na direção do heliponto do hospital Copa Dôr (já estaria em apuros?) mas voltou mais baixo ainda, tirando fino do topo dos prédios da Santa Clara. Subiu abruptamente rente ao paredão do morro e esborrachou-se na mata. Diz um morador que viu os ocupantes jogarem uma corda.

Disse a SSP que o aparelho "vinha de uma operação em Vila Isabel para a base da Lagoa, quando os policiais aproveitaram para fazer um treinamento no Morro dos Cabritos", e que isso seria normal. O morador André Costa nega, diz que não havia Morro dos Cabritos nessa operação, foi tudo no Bairro Peixoto, menos a queda.

Disse O Globo, ainda, que o piloto admitiu num primeiro momento haver cometido um erro. Depois mudou de versão, dizendo ter havido falha mecânica.

Essa tentativa de distorcer os fatos é totalmente caricata. O que terá acontecido? O piloto já havia admitido sua culpa. Teria seu superior hierárquico, em seguida, o obrigado a se desdizer, por razões políticas? Tudo isso nas fuças da cidade?

E que história é essa de ser normal um policial alterar o plano de vôo de uma aeronave a seu bel-prazer, pra fazer treinamento, vôo rasante em área tão densamente habitada? É essa bagunça que é o normal? Tal leviandade na manipulação de aeronaves é praxe na Secretaria de Segurança?

E a corda atirada do helicóptero, que propósito teria? Permitir que alguém descesse em local inadequado, não autorizado? Pegar alguma coisa no morro? Isso tudo soa muito estranho, parece coisa muito irregular. E fica evidente pela modificação da versão do piloto, que estão tentando escamotear a verdade.

O blog Êpa!, que defende uma utilização responsável, civilizada, controlada, do espaço aéreo da cidade por helicópteros, vai continuar reportando aqui o desenrolar desse episódio.
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30.10.03

Ministério Público do RJ: ouvem-se, enfim, os clarins da cavalaria 



Nauseados com a audácia dos autores desse atentado idiota, com o imperdoável compadrio da Prefeitura e das autoridades aeronáuticas, com o inexplicável silêncio de outras instituições igualmente detentoras de seu quinhão de responsabilidade sobre essa história, é com grande alívio que recebemos a notícia de que o Ministério Público do R.J. iniciou uma ação civil pública contra o Hotel Glória e o Município do Rio de Janeiro com as seguintes finalidades:

1) A interdição do heliponto e a proibição da atividade danosa.
2) A demolição do heliponto.
3) A anulação da licença para construção do heliponto.
4) A indenização pelos danos ao meio ambiente e à ordem pública que venham a ser causados pelo uso do heliponto.


A imagem não é lá muito politicamente correta, mas é inevitável associar a entrada em cena do MP à situação clássica do filme de faroeste: famílias de colonos cercadas por índios ferozes; subitamente, ouvem-se os clarins da cavalaria! Viva o Ministério Público do R.J.!

O texto da inicial da ação civil pública, um pdf de 120k, pode ser baixado aqui. Parabéns, cariocas. Não estamos, de todo, à mercê dos bandidos.
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14.10.03

O exemplo do prefeito Giuliani 

Em 27 de setembro de 1999, dois anos antes do atentado de 11 de setembro de 2001, movido pela necessidade de "alcançar um equilíbrio entre a eficiência local dos helicópteros, as exigências de segurança e a preocupação das comunidades locais com sua qualidade de vida", o então prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, lançou o Projeto do Plano Master dos Heliportos daquela cidade. Acabou com o heliporto do prédio da PanAm na rua 60 e disciplinou o funcionamento dos outros 3 (!!!), impedindo sua utilização nos finais de semana e proibindo vôos turísticos. Enfim, fez a coisa certa. Além disso, mostrando que percebia a gravidade do problema, centralizou a responsabilidade sobre a administração dos heliportos da cidade numa só entidade e criou uma comissão para a supervisão da atividade de helicópteros no espaço aéreo de N.Y. Tenho certeza de que a nós, cariocas, mais do que a visão da estátua da liberdade do Barrashopping, interessa vermos praticadas no Rio a seriedade e a responsabilidade que Nova Iorque demonstra no trato desse problema. Façam aqui o download do press-release traduzido, em PDF.
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29.9.03

Mais um! 

Deu n'O Globo de ontem: "Um hospital, com heliponto, será instalado no antigo prédio da Artplan na Lagoa. A AmBev acaba de vender o imóvel". Gente do Rio de Janeiro: se não nos unirmos em torno da reivindicação de uma política civilizada para o sobrevôo e pouso de helicópteros, essas empresas cafajestes vão acabar com as condições de habitabilidade de nossa cidade.
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28.9.03

Menos um! Menos dois!! Menos três!!! Menos quatro!!!! Menos cinco!!!!! 

Alguém ainda tem dúvidas quanto ao perigo representado pela vizinhança de helipontos ou heliportos?

Rio de Janeiro, 5/7/2003 - Aviation News - "Um acidente com um helicóptero que prestava serviços para a Petrobras resultou na morte de cinco pessoas ontem à tarde no Campo de Marlim, na Bacia de Campos. O aparelho prefixo PT-YMV caiu quando o rotor da cauda chocou-se contra o mastro do navio Toisa Mariner ao tentar pousar no heliponto da embarcação, a cerca de 20 metros de altitude e a 60 quilômetros da costa. Após o choque, o helicóptero rodopiou, bateu no casco do navio, pegou fogo, caiu no mar e afundou"

São Paulo, 2/10/2003 - Agência Estado: "Um helicóptero fez hoje um pouso forçado dentro do Parque Ecológico do Tietê, na zona leste de São Paulo. Bombeiros informaram que três pessoas ficaram feridas, sendo uma gravemente. Parte do aparelho ficou destruída pelo impacto no solo. O local onde a aeronave pousou está perto da Avenida Dr. Assis Ribeiro, na divisa com o município de Guarulhos, mas ainda em São Miguel Paulista, bairro da zona leste da capital."

São Paulo, 25/10/2003 Último Segundo - "Um helicóptero de instrução modelo Robson-22, com prefixo PPMIL, caiu por volta de 12h30 no momento da aterrissagem na pista principal do Campo de Marte, zona norte de São Paulo. Segundo o Corpo de Bombeiros, o acidente matou o instrutor de vôo Rene Cibele Mixel."

Amazonas, 15/11/2003 - O Globo: "Helicóptero da Petrobras cai e mata 2 pessoas"- "Duas pessoas morreram e quatro ficaram feridas anteontem na queda de um helicóptero em Coari (Amazonas), a 180 quilômetros da Província Petrolífera de Urucu.(...) Segundo a Petrobras informou em nota, o helicóptero caiu quando decolava de uma área de apoio às operações."

Rio, 24/11/2003 - O Globo: "Helicóptero cai em Copacabana" - "Um helicóptero do governo do estado caiu ontem à noite na mata do Morro dos Cabritos, em Copacabana. O piloto (...), que chegou a admitir num primeiro momento que tinha cometido um erro, disse que na verdade houve uma falha mecânica."
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21.9.03

Baixos teores, mas... altos terrores  

O blog Êpa! está organizando o concurso Bin Laden Light, ou Baixos Teores/Altos Terrores, para premiar o mais criativo projeto, ou obra, que vise implementar o uso de aeronaves contra a segurança e a paz dos moradores do Rio. São candidatos até agora o senhor Ronaldo Cézar Coelho e a administração do Hotel Glória.

O sr. Ronaldo é o digníssimo secretário municipal de Saúde da PREFEITURA do Rio, que declarou o seguinte, a propósito da construção do heliponto do Hospital Miguel Couto, situado junto aos apartamentos da Rua Bartolomeu Mitre, no Leblon: "O heliponto é questão fechada. Faremos uma emergência do século XXI, nos moldes das unidades mais modernas do mundo." Nenhuma palavra sobre a existência de uma análise ambiental confiável, atestando que a escolha da localização do heliponto não vai trazer prejuizos para a comunidade vizinha, para os alunos das duas escolas daquela rua ou mesmo para as corridas do Jóquei.

Quanto aos responsáveis pelo Hotel Glória, estão tentando abrir um precedente que, uma vez imitado pelos concorrentes, irá potenciar a degradação desta já tão degradada cidade. Trata-se de um marco do nosso progressivo divórcio dos standards dos grandes centros ocidentais- veja os detalhes em outro post deste blog.

Alguma sugestão? Outro candidato? Alguma boa idéia para o prêmio?
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20.9.03

Deu no JB de anteontem (18/9/03), na coluna da Hildegard Angel: o Hotel Glória está à venda. Isto significa que esse atentado à cidade é apenas uma jogada para passar o ponto. Uma isca. Talvez não seja má idéia sugerir cautela aos eventuais interessados.
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12.9.03

Atentado ao Outeiro da Glória 

O Hotel Glória construiu um aeródromo, um heliponto, espécie de plataforma metálica no topo de um de seus prédios. Em dez de abril passado foi inaugurado: pousou o primeiro helicóptero.

Somos moradores do Outeiro da Glória, vizinhos deste hotel. Estamos nas ruas do Russel, Barão de Guaratiba e Goitacazes e nas ladeiras de N.S. da Glória e do Russel. Como se trata de uma colina, algumas de nossas casas estão abaixo, quase embaixo do heliponto, que se projeta sobre a rua; outras estão no mesmo plano ou acima.

Pelo que pudemos testemunhar no dia do pouso inaugural – a transgressão dos níveis suportáveis de ruído e insegurança, a angústia e desconforto de nossas famílias – decidimos denunciar a agressão à cidade. Trata-se de evidente violação da lei, dos direitos de uma comunidade a silêncio e segurança. Mas vai além, pois desfigura e ameaça um sítio histórico dos mais preciosos do Rio.


O Outeiro da Glória é um sítio excepcional na geografia do Rio: num cenário de morros de formas e dimensões espetaculares, ele nos faz lembrar do valor da suavidade, do detalhe, da delicadeza. A Igrejinha de N. S. da Glória, jóia desta colina, construída no início do século 18, é uma edificação que exige cuidados especiais de conservação. Ondas de choque geradas pelos helicópteros do vizinho são uma ameaça inédita, como inédito é o grau de desrespeito ao tesouro cultural do País, de desmoralização da idéia de proteção ao ambiente cultural. O trânsito de helicópteros e a presença ostentosa desta megaestrutura industrial corrompem o que resta de harmonia no conjunto urbanístico do outeiro.

O prefeito do Rio acabou de extinguir o heliponto da Lagoa, admitindo que colocava em risco a vida dos usuários da ciclovia. Sua percepção da insegurança desses engenhos logo se confirmou: caiu mais um helicóptero no Estado, fazendo vítimas fatais. Se é mesmo para serem considerados veículos urbanos, não seria o caso de limitar ao máximo o seu emprego às emergências e seu pouso aos aeroportos? A tabela abaixo mostra como outras grandes cidades do mundo tratam o assunto.












A tabela denuncia a aberração. As demais cidades têm, evidentemente, critérios para a instalação de helipontos que São Paulo e Rio desconsideram. Sabemos que esses critérios atendem à obrigação de não expor os cidadãos à insegurança e a níveis inaceitáveis de sofrimento por ruído. Esses números refletem então o respeito das municipalidades aos seus cidadãos e são um termômetro da auto-estima das cidades. Madrid não tem helipontos urbanos porque quer continuar maravilhosa. Los Angeles tem cinco por suas necessidades de segurança atípicas.

Ao Rio cabe decidir: seguir o paradigma paulistano ou sobreviver como cidade e destino turístico mundial.

Pois o turista mais criterioso, por certo, evita cidades que negligenciam seu meio ambiente e o legado de sua história. Fica fácil concluir que os responsáveis por esta agressão estão, no mesmo ato, atentando contra seus próprios interesses.

Como classificar essa conduta?

___________________________________

Pela interdição do Outeiro da Glória ao pouso de helicópteros.
Pela remoção do heliponto.
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Boa palavra, rapaz! 

"Sou piloto e proprietário de helicóptero. Vôo três vezes por semana, mas me recuso a decolar da Faria Lima, perto de onde moro e trabalho. Uso os helicentros."
Pedro Mellão, empresário, homem sensato, declarando na Vejinha SP que não aprova os helipontos que invadiram as áreas residenciais de São Paulo. Helicentros devem ser instalados em lugares que permitam a aproximação de helicópteros sem que coloquem em risco vidas de terceiros, e onde o barulho não afete ninguém. Veja a matéria no link São Paulo em guerra.


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11.9.03

Xô, helicópteros! (A Lagoa é nossa!) 

Não tenho nada contra o setor hoteleiro, quem tem?, mas que, ultimamente, ele anda ultrapassando o foyer, lá isso anda. Primeiro fez aquele escarcéu quando o Manoel Carlos resolveu matar a Fernanda de “Mulheres apaixonadas” com uma bala perdida, como se disso dependesse a reputação da cidade. Logo em seguida partiu em defesa do heliponto da Lagoa.
Também não tenho nada contra o heliponto da Lagoa. Enquanto heliponto. Acho até bonito os helicópteros pousando, decolando e, sobretudo, voando em frente ao Cristo, feito insetos gigantescos. Mas tenho tudo contra qualquer coisa que atrapalhe o carioca no gozo de sua cidade. E o heliponto o faz.

* * *
Há duas semanas, como é sabido, a ciclovia da Lagoa está bloqueada. Justamente no trecho mais bonito, porque a Aeronáutica descobriu que a revoada dos helicópteros é prejudicial à saúde dos passantes. Os passantes, insensíveis à preocupação das autoridades com sua integridade física, estão indignados. O prefeito tomou — é, esse mesmo — tomou as dores pedestres e o heliponto, parece, tem agora dois meses para bater as asas e ir pousar em outra freguesia.
— Deve prevalecer a qualidade de vida da maioria — disse o prefeito ao Ancelmo Góis, com inesperada sensatez. Nem parece o mesmo prefeito do Guggenheim.
Este bom senso elementar, porém, parece faltar ao vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH), Ângelo Vivácqua, que acha que o heliponto deve ficar lá, interrompendo os álacres (!) caminhantes para... não atrapalhar o turismo!
— A vista proporcionada pelos pousos e decolagens da Lagoa é uma das principais atrações nos sobrevôos que os turistas fazem pela cidade, — declarou ele ao GLOBO no último dia 5. — Se o problema é a ciclovia, ela que seja desviada.

* * *
Recortei a matéria e a espetei no quadro ao lado da minha escrivaninha. Uma frase dessas não pode desaparecer assim, sem mais nem menos, no torvelinho do noticiário, como se não tivesse sido pronunciada.
Se entendi bem, senhor vice-presidente, quer dizer que as prioridades da cidade devem ser decididas única e exclusivamente para o conforto e bem-estar dos turistas?!
Entendi bem?!
Ainda que eu esteja enganada e que a prioridade seja esta mesmo —- alguém me explicaria, então, a odiosa discriminação contra justamente a maior parte dos turistas, aqueles turistas médios, que por acaso sustentam o turismo andando na Lagoa e comprando água de coco, mas não têm dinheiro para vôos panorâmicos? Será que eles não são dignos de passear por aquele trecho tão bonito?
Quando eu era criança e o mundo mais espaçoso, muita gente ainda tinha sala de visita —- em geral o melhor cômodo da casa, o mais bem decorado e arrumado e, paradoxalmente, o menos usado de todos.
As mães tinham horror de que nós, crianças, fizéssemos bagunça na sala de visita; detestavam, igualmente, que os maridos ficassem por lá, fumando, lendo jornal, e pondo copos ou xícaras em cima dos móveis de madeira lustrada.
Por isso a sala era sempre um espaço ocioso, mal aproveitado, aberto apenas em dias de festa, pois as visitas apareciam muito raramente — na maior parte das vezes, aliás, para extrema aflição da família, tanto que havia um elenco de procedimentos para afungentá-las. Me lembro bem de dois deles, vassoura de cabeça para baixo atrás da porta e sal no fogo — mas isso é outra história.

* * *
O fato é que eu, que sempre morei literalmente dentro de uma biblioteca, onde a vida doméstica disputava cada metro quadrado com os livros do meu pai, não era íntima de salas de visita, e ficava muito admirada com as salas de visita das casas dos colegas.
Mais do que o desperdício de área útil, me chamava a atenção a tristeza daquelas salas, com as quais ninguém tinha qualquer familiaridade, e de que ninguém gostava de verdade, nem mesmo a dona da casa.
Não sei se ainda se reservam salas para as visitas, mas elas sempre me voltam à lembrança quando o turismo é apontado como principal motivo para se fazer, ou não, alguma coisa pela cidade. Não percebem que não precisamos de salas de visitas. Precisamos é de cuidar melhor da sala de estar, da cozinha, do banheiro, de onde se vive a vida real.
Tudo, por tabela, para as visitas, para os amigos, aberto com toda a nossa simpatia. E, para alguns, até com amor.

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Obs: texto da Cora Rónai, publicado no Segundo Caderno d'O Globo em 17.7.2003.
Cora, gentilmente, concordou que o republicássemos aqui.

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Deu no jornal Último Segundo, da Ig:

Pilotos de helicópteros sofrem pressão de patrões para voar com tempo ruim.

E mais: "Resta agora ao DAC e à polícia esclarecerem o que leva um aparelho de última geração, guiado por pilotos experientes, de empresa que afirma seguir todos os procedimentos de segurança de vôo, cair e provocar mortes."
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10.9.03

Acidente em heliporto de NY. 

"Em 14 de fevereiro de 2000, um helicóptero taxiando (estacionando) no heliporto da West 30th Street atingiu a cerca de contenção. As pontas de suas hélices soltaram-se e se chocaram contra o terminal e diversos automóveis. Os helipontos da cidade de Nova Iorque - pequenos, cercados de obstáculos, utilizando pilotos inexperientes - continuam a ameaçar tanto as pessoas quanto a propriedade".

Leiam a nota aqui , junto a outras informações sobre a Coalizão contra Barulho de Helicóptero de Nova Iorque.

Note-se que este acidente ocorreu num dos 3 únicos heliportos de Manhattan, sujeito a normas de segurança típicas daquelas bandas. Desde 1999 os 2 heliportos da prefeitura não aceitam mais vôos panorâmicos, turísticos, e foi criado um órgão municipal para supervisionar a questão dos helicópteros na cidade, tratar o assunto com a seriedade que os riscos e grandes incômodos envolvidos impõe.

É evidente que nenhum dos hotéis internacionais do Rio ousaria o que o Glória ousou. Esse despudor em pretender sacrificar a cidade para atender seus discutíveis interesses é coisa pequena, é coisa nossa.
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29.7.03

Heliponto do Miguel Couto 

Realizou-se, ontem à noite, uma reunião dos moradores do prédio vizinho ao Hospital Miguel Couto que, recentemente, foram informados que sua rotina de habitantes da fronteira entre três dos mais exclusivos bairros da zona sul do Rio será sacudida por algo parecido com a instalação de um acampamento militar, como um ninho de helicópteros na periferia de Bagdá.

Estive lá, convidado pela síndica, Sra. Angela Dourado. Soube do drama que tem sido sua convivência com a caótica portaria da emergência do hospital, e do pânico gerado pela ameaça do heliponto. Falei, acho que pelos cotovelos, especialmente sobre o sombrio, estranho significado dessa nova forma de mortificação da gente do Rio. Mostrei as patéticas imagens do Outeiro e conversamos sobre as duas situações, suas semelhanças e diferenças.

Pude perceber que o impacto do heliponto vai afetar gravemente uma comunidade muito maior que a daquele prédio. Moradores de todos os edifícios daquele trecho da Bartolomeu Mitre e cercanias estarão sujeitos a descargas periódicas e imprevistas de 95 decibéis em seus tímpanos. De dia, ou no meio da noite. É espantoso que isso possa ser causado por um hospital. Ou não é fato que todos nós crescemos acostumados à advertência: Silêncio, Hospital? Ao "psiu!" das enfermeiras em adesivos pelas paredes? Será que isso acabou, que a medicina concluiu que ruídos infernais, no fundo, ajudam na recuperação da saúde?

Podemos especular infinitamente sobre a miopia de administradores públicos que cogitam de planos desse tipo. Será que não lhes diz nada o fato de que as grandes cidades do mundo não permitem a promiscuidade entre aeronaves e residências? Não vêem que estão a acrescentar stress e violência às nossas vidas? Não consideram que isso desrespeita as leis? Estou convencido de que os responsáveis por esse projeto estão perfeitamente cientes disso tudo. São, porém, suficientemente provincianos para sustentar esse obstinado desvio das normas das cidades contemporâneas. E sobretudo, são conscientes do apelo publicitário dos helicópteros, impregnado em nossas mentes através dos anúncios glamourosos de planos de saúde. Suponho que seu raciocínio seja o seguinte: reverto a vida de uma comunidade às condições infernais da Inglaterra da Revolução Industrial, mas desfraldo um poderoso símbolo dos novos tempos, capaz de me lançar às alturas que almejo na política desse pobre país.

Há um cinismo maligno envolvido nisso tudo. Nossas vidas vem sendo manipuladas, estão ao sabor da necessidade que a política ultra-artificial de agora tem de símbolos. Os manipuladores não vacilam em nos lançar num processo de degeneração urbana sem precedentes, confiando na indiferença dos que não forem as vítimas do momento.

Há, com certeza, outras maneiras de facilitar o uso de helicópteros por esse hospital. Sendo o heliponto da polícia tão próximo (700 metros), por que não se pensa numa passagem subterrânea para ambulâncias ligando os dois pontos? Ou num trajeto de emergência cruzando canteiros e utilizando calçadas, para as horas de rush? Talvez essas opções não sejam tão espetaculares enquanto trunfos político-promocionais, mas resolveriam o problema dentro da lei e não criariam outros mais graves.

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28.7.03

"Um dia a humanidade terá que combater o ruído, assim como combateu o cólera e a praga". 

Sir Robert Koch, cientista que venceu a tuberculose e o cólera. Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina em 1905.
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27.7.03

"O barulho é a tortura do homem de pensamento." 

Schopenhauer
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